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Por um horizonte sem zoológicos: considerações contra projeto para privatização da Fundação Parque Zoológico de SP

Por um horizonte sem zoológicos: considerações contra projeto para privatização da Fundação Parque Zoológico de SP

Nós, ativistas autônomes pela causa da Libertação Animal, atuantes em iniciativas como Coletivo Vaca/RJ, Dhuzati Antiespecista/PE, Aveg/PE, Santuário Voz Animal/RS e MOVA/RS, além de associades à UVA – União Vegana de Ativismo, uma rede que interliga coletivos locais de todo o Brasil em torno de um veganismo construído enquanto movimento social, exigimos a abertura imediata de um amplo debate acerca da privatização da Fundação Parque Zoológico de SP por entender que essa medida representa um retrocesso à luta contra a exploração dos animais não humanos, bem como pode ser replicada em outras Unidades da Federação, direcionando as políticas de conservação de espécies e tutela de animais não-reintroduzíveis na natureza para uma crise sem precedentes.

A tentativa de privatização dessa instituição, proposta através do Projeto de Lei 183/2019, sem debate com a sociedade civil, profissionais envolvidos, movimentos sociais e especialistas da área ambiental e animalista representa uma ação autoritária e clientelista, que submete os animais humanos, que lá trabalham, e os não humanos, lá confinados, aos interesses do mercado para serem instrumentos de lucro.

Como integrantes de uma rede que se posiciona contra o especismo, sistema de opressão que hierarquiza, inferioriza e mercantiliza os animais não humanos, afirmamos que esses seres possuem valores intrínsecos e, portanto, não devem ser instrumentalizados para servir a finalidades humanas. Como ativistas e organizações aptas e qualificadas a colaborar com este debate, reivindicamos que ele seja norteado por uma ética política de justiça social, a fim de respeitar e preservar o direito à vida e ao habitat dos animais não humanos, além dos direitos trabalhistas das pessoas envolvidas.

Repudiamos que o Poder Público execute a privatização de uma fundação que tem um importante papel na conservação de espécies e tutela de animais não-reintroduzíveis, embora não atue integralmente de forma antiespecista, transformando em política pública o lucro de empresas que, em nome do espetáculo e do lazer dos humanos, não priorizarão os cuidados, as necessidades comportamentais e a liberdade dos animais não humanos, naturalizando a sociedade vê-los como objetos à mercê das necessidades e vontades humanas.

Consideramos que as funções de conservação, reabilitação, cuidados, educação ambiental, reprodução de espécies em risco, pesquisa, reintrodução de animais e tutela dos que estão impossibilitados de ser reintroduzidos devem ser centrados numa perspectiva antiespecista. Isso é fundamental para reparar a devastação dos habitats e extinção de espécies causadas pelo progresso civilizatório e urbanista, além de crucial para consolidar uma convivência harmônica e horizontal com nossos co-habitantes terrestres.

A privatização da Fundação contribuirá para exacerbar o foco de sua gestão na obtenção de lucro e tende a desconsiderar os interesses dos animais, uma vez que a vinculação estatal garante a centralidade da importância pública no manejo da Fundação e permite maior participação da sociedade civil e da população nas tomadas de decisão. A privatização apresenta risco para a manutenção e o investimento de importantes atividades que estão sendo executadas atualmente, sobretudo em momento de queimadas históricas, onde muitos bichos estão terrivelmente feridos e enfermos.

As atividades que consideramos que contribuem para os cuidados animais, de acordo com a atual estrutura e funcionamento do zoológico, não são atividades lucrativas, mas sim investimentos necessários para a manutenção e conservação de espécies. É possível obter fontes de financiamento sem a exploração animal, seja pela designação orçamentária do poder público, seja por atividades pedagógicas, parcerias com instituições de fomento à pesquisa e educação ambiental, por financiamento coletivo voluntário, sistemas de apadrinhamento de animais, entre outras possibilidades.

Como mencionamos, reconhecemos a necessidade e importância de muitas atividades realizadas pela Fundação, mesmo avaliando que atualmente ela ainda funcione sob uma perspectiva de exploração, abuso e objetificação dos animais não humanos. De toda forma, estamos em tempo de atualizar sua estrutura física e organização para que caminhe rumo à construção de uma relação anti-especista com os animais não humanos.

Precisamos nos desvencilhar do nome “zoológico”, pois culturalmente carrega a imagem dos animais expostos como fonte de lazer. Esse debate deverá ser melhor elaborado junto aos funcionários da Fundação, mas de modo que o novo nome traga uma mudança na forma que enxergamos nossa relação com os animais não-humanos, bem como com a natureza. Alguns exemplos como ponto de partida para essa reflexão seriam: zonas ambientais animalistas, zonas ambientalistas antiespecistas, espaços ambientalistas e animalistas, centros ambientalistas de conservação, centros animalistas de conservação.

Atualmente a visitação é responsável pela maior parte do orçamento da Fundação Parque Zoológico de São Paulo, por isso nossa proposta é de uma transição para uma instituição que tenha como objetivo a conservação de espécies, reabilitação e bem-estar dos animais abrigados, sem que esses sejam expostos para o público. De certo modo, desejamos que toda a Fundação Parque Zoológico de São Paulo se torne o Centro de Conservação de Fauna Silvestre (CECFAU), funcionando de forma integrada com o Centro de Recuperação de Fauna Silvestre (CRAS).

Compreendemos a importância da Educação Ambiental e lutamos para que ela seja antiespecista, uma vez que, atualmente, os zoológicos naturalizam o confinamento dos bichos e o desprezo dos comportamentos de ansiedade, depressão e estresse, afinal, no modelo atual, reações de desconforto viram facilmente atração sob a vibração dos espectadores. Programas de voluntariado e trilhas podem promover uma real aproximação da população com a flora e fauna da Mata Atlântica, já que a instituição se encontra na área do Parque Estadual das Fontes do Ipiranga. As visitas convencionais sob o entendimento de contemplação deverão ser limitadas, reduzindo seu número até que, a longo prazo, deixem de ocorrer.

A educação ambiental não pode mais seguir pela função contemplativa dos humanos, ela deve assumir uma função colaborativa e reflexiva, aprimorando e expandindo os programas de voluntariado para que a pedagogia atue nas práticas de cuidado e se desvinculem das práticas de espetacularização e consumo cultural. As atividades existentes, como os cursos de formação, as visitas monitoradas, a trilha da Kinha e o Clube Tetéia, devem ser mantidas enquanto necessárias e aperfeiçoadas conforme possível, sempre priorizando a dignidade dos animais.

Durante a pandemia, as mídias sociais se tornaram uma ferramenta importante para a Divulgação Científica e bastante eficiente, uma vez que tem amplo alcance. Investir nesses meios de comunicação, divulgando os projetos de conservação, as atividades de reabilitação e informações sobre as espécies também é uma opção de Educação Ambiental que pode ser melhor explorada. Muitas instituições inclusive implementaram uma visita virtual (tour virtual), fazem transmissões ao vivo de alguns recintos e também disponibilizam experiências com imersão virtual.

Assim, reafirmamos o repúdio total à privatização e a necessidade de repensar os zoológicos para que possamos construir espaços de conservação e reabilitação que tenham como prioridade a garantia da liberdade e o bem-estar dos animais não humanos.

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